MOÇAMBIQUE
Moçambique é um país da África Austral, voltado para o Oriente, banhado pelo oceano Índico. Possui 771.000.000 km de extensão e uma população de aproximadamente 15 milhões de habitantes. A origem de sua sociedade remonta aos séculos III ou IV d.C., quando povos bantu ali chegaram e se fixaram na costa oriental africana entre o lago Niassa e o oceano Índico, ao norte do país.
Por volta dos séculos VII e VIII, os árabes chegaram à costa africana oriental e estabeleceram o comércio com os bantu. O ouro e o marfim moçambicanos começaram a ser trocados por porcelanas, miçangas e tecidos árabes. Com o crescimento desse comércio, lucrativo para ambas as partes, tanto os árabes quanto os régulos dos povos bantu já “arabizados” criaram xecados, ou seja, sultanatos em alguns pontos do litoral moçambicano.
Aproximadamente ao final do século XV, alguns reinos bantu, entre os quais o de Monomoplata (este no interior, em região do centro de Moçambique), alcançaram seu apogeu, subjugando outras etnias africanas do centro/sul moçambicano, território que vai do rio Zambeze ao rio Limpopo. É nesse período que se estabelece o primeiro contato com os portugueses, que vinham explorando a costa africana desde 1415, quando aportaram em Ceuta. Dizendo tentarem encontrar um caminho para chegar às Índias, os navegadores lusos aportaram no Norte, na Ilha de Moçambique, em 1498, comandados por Vasco da Gama.
A partir dessa época, iniciou-se a luta dos conquistadores lusitanos para expulsar os árabes e subjugar as populações nativas de Moçambique, se apropriando das riquezas locais. Tais objetivos, no entanto, não foram alcançados com facilidade, devido à resistência dessas etnias africanas.
Até a metade do século XVIII, os portugueses deram prioridade à exploração das riquezas locais, primeiramente o ouro e depois o marfim. Voltados para esse comércio, os conquistadores, entre os anos de 1502 e 1752, deixaram a administração de Moçambique a cargo da Índia portuguesa (Goa), razão que explica o grande número de indianos em regiões moçambicanas. Contudo, à medida que o tráfico negreiro começava a se intensificar, a extração do ouro e do marfim diminuía. De 1750 a 1860, a ação portuguesa se concentrou no tráfico negreiro.
No início do século XIX, com mais ou menos dois séculos já passados de comercialização de escravos, a Inglaterra, grande potência européia da época, passou a lutar pelo fim do tráfico negreiro. Tal país tinha sofrido a Revolução Industrial na metade do século anterior, se tornando capitalista. O seu intuito na luta contra o tráfico era, portanto, fazer com que a força do trabalho escravo nas colônias americanas ou africanas fosse substituída por suas máquinas industriais já ultrapassadas.
A posição dessa potência européia dificultou muito a situação de Portugal e ocasionou, em meados do século XIX, o término do tráfico negreiro. A metrópole portuguesa, não tendo mais essa fonte de renda, decidiu, então, se voltar para a efetiva colonização das suas possessões africanas, entre as quais Moçambique. Entretanto, para que a colonização pudesse obter êxito, duas ideologias precisavam ser assimiladas pelos moçambicanos. Uma delas era a de que os portugueses eram superiores a eles tanto cultural, como racialmente e, por isso, mereciam ser respeitados e admirados. A outra consistia em fazer crer que os árabes não eram boas pessoas, merecendo, assim, o desprezo. Os portugueses sempre discriminaram os árabes (que dominaram o comércio moçambicano antes deles), a quem chamavam de “mouros negros”. O domínio português passou aos colonizados um preconceito, silenciando as marcas orientais presentes na cultura daquela colônia. Pretendia-se levar os moçambicanos ao esquecimento “de que não fora pela mão dos portugueses que os mesmos haviam entrado para a História”.
Inicialmente, muitos dos povos africanos locais incorporaram ambas ideologias, negando tanto os traços árabes que possuíam devido aos séculos de contato com orientais, como também as heranças de suas próprias etnias, voltando-se para a valorização da cultura portuguesa. Mas, houve também muita resistência de diversas etnias africanas até 1895.
Neste ano, Mousinho de Albuquerqure, administrador português em Moçambique, conseguiu prender, em Chaimite, o guerreiro moçambicano Gungunhana, chefe dos Vátuas. Foram os povos moçambicanos que mais resistiram à ocupação colonial. Após a dominação de Gungunhana, no final do século XIX, houve uma forte imposição da língua portuguesa como idioma oficial. Nessa época, ocorreu também a fundação de escolas, da imprensa e o aparecimento da literatura escrita.
Em meados do século XX, mais especificamente no fim dos anos 40, no entanto, houve uma conscientização da urgência de valorização da cultura moçambicana, a partir da percepção das injustiças sofridas pelos negros. Esse foi o período de fundação de uma autêntica literatura, que precedeu a fase literária dos tempos das lutas pela libertação.
Em 1962, o grande líder moçambicano Eduardo Mondlane fundou a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). O dia 25 de setembro de 1964 foi estabelecido como do início da guerra pela libertação de Moçambique, que só obteve sua liberdade em 25 de junho de 1975, após quase 11 anos de combate contra o colonialismo português. Eduardo Mondlane lutou muito, mas morreu em 1969, sendo substituído por Samora Machel, que se tornou o presidente da FRELIMO e assinou um acordo com um representante do governo português, marcando a independência para 25/06/1975. Conclui-se que esse acordo foi decorrente, principalmente, das guerrilhas em Moçambique, mas também da Revolução dos Cravos (ocorrida em 25/04/1974, em Portugal), que deu fim à ditadura de Salazar, cujos efeitos foram tão destrutivos para os portugueses como para os povos africanos colonizados. Eduardo Mondlane foi o primeiro presidente da república popular de Moçambique.
Seguiu-se à libertação deste país um período de euforia, com a FRELIMO no poder, interrompido dois anos depois com o começo da guerra civil. O povo tomou consciência de que as promessas feitas durante as lutas de libertação não foram totalmente cumpridas, de que a independência não fora a solução para todos os problemas da nação. Assim, diluiu-se parte das utopias revolucionárias. Após 1980, começou, então, um período de desilusão. As disputas políticas entre a RANAMO e a FRELIMO desencadearam, até outubro de 1992, uma guerra de desestabilização que destruiu bastante o país.
Em 4 de outubro de 1992, foi assinado em Roma o acordo de paz. Desde essa época terminaram as guerras em Moçambique. O atual presidente moçambicano é Joaquim Chissano, que substituiu o primeiro, Samora Machel, morto num estranho acidente de aviação em 1986. Há, hoje, um desejo de reconstrução nacional por parte do povo. Entretanto, o neoliberalismo contemporâneo atinge também o contexto econômico e político do país, que abre suas portas ao capitalismo transnacional, às privatizações, fazendo com que muitos moçambicanos se esqueçam dos ideais marxistas da época da independência. Pela proximidade com a África do Sul, muitas empresas sul-africanas começam a dominar parte dos negócios em Moçambique. O neocolonialismo, agora, é exercido pelo FMI e pelo Banco Mundial, que tentam enredar com seus tentáculos todo o planeta.
BREVE PANORAMA DA LITERATURA MOÇAMBICANA
A literatura moçambicana, antes de a colonização portuguesa se efetivar, era ágrafa e baseava-se nas tradições orais das etnias negras de origem bantu que habitavam originariamente o território hoje designado como Moçambique. Essa literatura oral, mesmo após a imposição da letra pelos colonizadores portugueses, continuou a se desenvolver paralelamente à literatura escrita, o que ainda ocorre até hoje, pois muitas etnias do interior moçambicano não falam o português e passam suas tradições, oralmente, através de estórias, lendas, provérbios e adivinhas.
Parte do rico patrimônio oral moçambicano foi recolhida por Orlando Mendes, conhecido poeta e prosador da literatura moçambicana. Vale ressaltar que, anterior a ele, tal apreensão cultural esteve a cargo de estrangeiros, que muitas vezes não possuíam a sensibilidade do reconhecimento da literatura oral como tradição dramática de um povo. Orlando Mendes considerou o caráter significativo dessa manifestação cultural, indo contra o pensamento preconceituoso de que as sociedades africanas seriam estéticas, incapazes de guardarem suas tradições.
Do século XVI ao XIX, apenas uma pequena parcela da população de Moçambique, assim como do restante da África portuguesa, sabia ler e escrever. De um modo geral, não existiam sistemas lingüísticos escritos; as línguas africanas, em sua maioria, eram apenas faladas. As tradições locais continuavam a ser, desse modo, transmitidas oralmente.
A produção literária escrita colonial desse período restringia-se à literatura de viagens: eram os próprios portugueses que forneciam suas impressões sobre o continente africano, atribuindo a este uma imagem “bárbara” e “exótica” através de historiografias, crônicas e depoimentos científicos e até religiosos. Dos escritos da expansão que deram seu testemunho, destacam-se, entre outros, Diogo do Couto, Fernão Mendes Pinto, Damião de Góis, Garcia de Orla, Duarte Pacheco Pereira, João de Barros.
Referência:
SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. Literaturas Africanas. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006.
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