GUINÉ-BISSAU
Situada na costa Ocidental africana, Guiné-Bissau é constituída de uma parte continental e de uma parte insular, esta separada do continente pelos canais Geba, Bolama, Pedro Álvares e Canhabaque. As ilhas da Guiné-Bissau formam o arquipélago de Bijagós. Destacam-se as de nome Formosa e Orango.
Guiné-Bissau possui 36.125 km, contudo somente 28.000 se encontram emersos. O restante é periodicamente coberto pelas marés cheias. O país faz fronteira ao Norte com o Senegal; a Oeste, com o oceano Atlântico; e a Leste e Sul, com a Guiné. Em seu litoral desembocam quatro rios importantes: Cacheu, Mansoa, Geba e Corubal. Esses dois últimos são os maiores do território, e todos se unem num largo estuário, em cuja margem direita fica a capital do país: Bissau. A pesca aí é muito produtiva, dado o encontro de águas doces e salgadas, que propicia uma grande variedade de peixes.
Guiné-Bissau serviu durante séculos de refúgio para numerosos povos africanos que sofreram invasões. Isso ocasionou no país uma complexidade étnica, lingüística e cultural enorme. Durante muito tempo acreditou-se que os povos da Guiné eram autóctones, todavia hoje se sabe que são originários do Saara. Os principais grupos étnicos existentes no país são os balantas, os fulas (fulbé ou peul), os manjacos, os papéis, os mandingas e os bijagós. Além dessas principais e de outras etnias, há também na população do país mestiços luso-guineenses e cabo-verdianos. Quando os portugueses chegaram à Guiné-Bissau, no século XV, com as viagens de Nuno Tristão (1444) e Álvaro Fernandes (1446), a região já era habitada por vários grupos oriundos do interior do continente, provavelmente do vale do Níger. Guiné-Bissau, desde a chegada dos portugueses até o final do século XIX, esteve muito ligada a Cabo Verde, servindo de entreposto comercial para o tráfico que transportava escravos para a América e para as ilhas cabo-verdianas.
O país ficou conhecido por um tempo como Guiné de Cabo –Verde. O crioulo falado aí se estabeleceu como língua materna de um grande número de guineenses. Somente com a separação das duas colônias, em 1879, a Guiné-Bissau foi se individualizando.
Embora o português seja o idioma oficial, a língua usada no dia-a-dia é o crioulo (o kriol guineenses), assim como ocorre em Cabo-Verde. O país apresenta diversos idiomas, devido à miscigenação ocorrida no passado. Entretanto, o crioulo é o conhecido por toda a população. Devido a isso, à época das guerrilhas, funcionou como instrumento de comunicação inter-étnica, de mobilização popular e de afirmação identitária.
Por servir como colônia de comércio, Guiné-Bissau não recebeu investimento do governo para seu desenvolvimento. O primeiro jornal dirigido por um guineense foi o Comércio da Guiné (1930-31). A opressão colonial, no final dos anos 50 e início dos 60, causava fortes descontentamentos. Amílcar Cabral, em 1956, fundou o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e de Cabo Verde). Contudo, foi o massacre de 50 trabalhadores, ocorrido no cais de Pidjiguiti, em Bissau, a 3/8/1959, que desencadeou, em 1963, a luta pela libertação, que durou até 24 de setembro de 1973, quando foi proclamada a independência da República da Guiné-Bissau, em Boé, reconhecida pelos portugueses apenas em 5 de julho de 1975, ocasião em que Cabo Verde também se libertou do jugo colonial português.
Após o reconhecimento da libertação da Guiné-Bissau, foi instalado um Conselho de Estado, cujo presidente foi Luís Cabral. O PAIGC, até então, constituíra-se como o único partido reconhecido. Em 14/11/88, um golpe de estado aboliu a Constituição e levou ao poder o “Conselho da Revolução”, presidido por João Bernardo Vieira (“Nino Vieira”), que se destacara como comandante guerrilheiro durante a guerra de libertação.
Atualmente, João Bernardo Vieira é o presidente do país, tendo sido reeleito em 1994, nas primeiras eleições do período multipartidário. Guiné-Bissau continua a ser um dos países mais pobres do mundo, sobrevivendo da agricultura e importando todos os produtos industrializados, dada a ausência de indústrias nacionais.
BREVE PANORAMA DA LITERATURA GUINEENSE
Em conseqüência de, somente entre 1948 e 1958, terem começado as primeiras campanhas de alfabetização na Guiné-Bissau, a escrita literária nesta ex-colônia portuguesa teve um desenvolvimento lento e tardio. Apesar dessa árdua trajetória histórica e social, a literatura desde sempre se fez presente na cultura guineense. Expressa oralmente, em geral transmitida através de relatos dos mais velhos para os mais novos, o corpus literário compunha-se de lendas, adivinhas e provérbios.
A bibliografia acerca das tradições guineenses no Brasil é poiuco encontrável. Em 1900, foi realizado o primeiro apanhado das tradições da Guiné-Bissau pelo Cônego Marcelino Marques de Barros. Esta recolha intitulou-se Literatura de negros.
Duas outras coleções foram publicadas; desta vez tendo sob foco a Ilha de Bolama: uma de dibiñas (adivinhas), de 1979, chamada ‘N STA LI ‘N STA LA, e outra de estórias, intitulada Jumbai, também do mesmo ano. Ambas coletâneas foram organizadas por Tereza Montenegro e Carlos Morais. Citemos ainda Mandingas, uma reunião de contos coordenada pelos mesmos autores. Em 1995, coube a Tereza Montenegro a publicação de as enxadas do rei, uma coletânea de contos que explorava a mitologia de pesquisas (INEP) da Guiné-Bissau contribuiu, até maio de 1998, para a divulgação das tradições orais do país, publicando não só diversos textos em crioulo, como também várias obras de autores guineenses. Infelizmente, a guerra contra o Senegal não poupou o INEP, que foi destruído por bombas e tiroteios.
Além de não muito extensa, a literatura escrita da Guiné-Bissau é pouco divulgada e pouco publicada. Este fato prejudica bastante os estudos das letras guineenses.
Apontam alguns estudiosos da área que as décadas de 20 e 30 do século XX representam o início da literatura guineense, visto que, neste espaço de tempo, surgiram os primeiros textos escritos. A temática explorada nesta fase remetia à natureza de Guiné-Bissau. Todavia, tais olhares voltados a terra, de acordo com o ponto de vista da professora Inocência Mata, significavam, ideologicamente, uma apologia ao colonizador, expressando, assim, uma visão colonialista. Aí se destacam os nomes de Fernanda de Castro e de Fausto Duarte. A primeira é autora dos livros Mariazinha em África, de 1925; As Aventuras de Mariazinha em África, de 1928; O Veneno do sol, romance, do mesmo ano que o anterior; e África raiz, poemas de 1929. O segundo escreveu Auá, novela negra premiada, de 1934; O Negro sem alma, de 1935; A Revolta, de 1945 e Foram estes os vencidos, do mesmo ano. Desta época é também o livro Poemas, de Carlos Semedo.
Referência:
SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. Literaturas Africanas. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006.
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