sábado, 7 de junho de 2014


     

       CANTIGA DA CATIVA

       Eu sou a pobre cativa
        A cativa d’além-mar.
        Eu vago em terra estrangeira.
        Ninguém me quer escutar;

        Tu que vais a longes terras,
        À viageira andorinha,
        Vai dizer à minha mãe,
        Que eu vivo triste e sozinha.

        Mas diz à pobre que espere,
       Que o Vento me há de levar
       Quando eu morrer nesta terra,
       Para as terras de além-mar.



A canção do africano

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...


De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!


Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!


0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!


Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...


Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".


O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!


............................


O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.


E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

 Castro Alves
 Livro: A era da escravidão/ Organizado por Luciano Figueiredo.- Rio de Janeiro: Sabin, 2009.
Material postado por Itaciane Kaline (Aluna do 6º período do Curso de Letras - FEUC)

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