CABO VERDE
Em suas navegações, os portugueses, ao se defrontarem com a ponta mais ocidental da África, onde hoje está a cidade de Dakar, capital do Senegal, ficaram impressionados com a sua verdura e resolveram batizar o local de Cabo Verde. Poucos dias depois, ao encontrarem em frente um arquipélago, deram-lhe o mesmo nome. Cabo Verde é formado por dez ilhas e vários ilhéus. Suas principais ilhas denominam-se Santiago e São Vicente e possuem como capitais, respectivamente, Praia e Mindelo, sendo a primeira também a capital de Cabo Verde. O país encontra-se situado no Oceano Atlântico, a 455 km do continente africano. Com uma área total de 4. 003 km, Cabo Verde é formado por dois grupos de ilhas: o do Barlavento, ao norte, com as ilhas de São Vicente, São Nicolau, Santo Antão, Santa Luiza, Boa Vista e Sal, além dos ilhéus Pássaros, Branco e Raso, e o grupo do Sotavento, ao Sul. Com as ilhas de Santiago, Maio, Fogo, Brava e os ilhéus de Santa Maria, Luís Carneiro, Sapado, Grande e Cima.
Os ilhéus de Cabo Verde são quase todos desabitados e a maior parte das ilhas sofre com secas e ventos fortes soprados do Leste – as “lestadas” – que provocam flagelos e fome. Tais males não são conseqüências apenas do clima semidesértico e do terreno árido, mas também da antiga exploração do solo, com o cultivo do algodão, indigo, sisal, além da criação de cabras. Esse abuso da terra cabo-verdiana acarretou em seu rápido empobrecimento e degradação. Devido à significativa miséria, os cabo-verdianos estão sempre em retirada, deslocando-se para outras ilhas ou outros países em busca de melhores condições de vida. É nesse contexto que se enraíza o dilema “querer ficar e ter de partir” caracterizador da alma cabo-verdiana.
A economia das ilhas é quase que essencialmente agropecuária, com exceção da ilha de São Vicente (em virtude do porto marítimo) e da ilha do Sal (em razão das salinas e do aeroporto internacional, que, juntamente com a presença de hotéis de categoria internacional, proporciona o turismo). Quanto à agricultura, cultiva-se principalmente o milho, base do prato típico de Cabo Verde, a catchupa.
Existem dúvidas a respeito dos “descobridores” do território insular de Cabo Verde. Contudo, é certo que quando os portugueses lá aportaram por volta de 1460, numa esquadra comandada por Diogo Gomes, as ilhas eram desabitadas. O arquipélago foi povoado, então, por portugueses vindos das ilhas da Madeira e dos Açores e, principalmente, por negros de diferentes etnias trazidos da Guiné-Bissau e do Senegal, o que resultou em intensa mestiçagem. Até hoje observa-se uma heterogeneidade cultural em se tratando das várias ilhas do arquipélago. Quanto ao aspecto lingüístico, a miscigenação teve como conseqüência o surgimento de um falar de emergência, o pidgin cabo-verdiano, que mais tarde se transformou no crioulo de Cabo Verde (um crioulo de base portuguesa).
Os portugueses e africanos que para Cabo Verde foram levados trabalhavam, na maioria das vezes, em plantações de tabaco, café e cana-de-açúcar. Por longo tempo, este arquipélago serviu apenas de entreposto comercial, parada obrigatória para os navios que tinham como destino as Índias ou as Américas. Lá se abasteciam de alimentos e, mais tarde, de escravos. Assim, durante quatro séculos, tal colônia teve um desenvolvimento peculiar, que resultou em sua cultura mestiça, oriunda do cruzamento europeu e africano.
Somente por volta de 1850 é que, findado o tráfico negreiro, Portugal se voltou para colonizar o arquipélago, criando a imprensa, fundando liceus e impondo a língua portuguesa como idioma oficial. Não obstante, o linguajar crioulo já se encontrava enraizado nessa época e, portanto, continuou a existir à margem do sistema. Enquanto a língua portuguesa era usada nas escolas e em repartições públicas, falava-se crioulo no dia-a-dia. Esse bilingüismo persiste até os dias atuais.
Desde os tempos coloniais, a miséria e a fome em Cabo Verde não foram combatidas, dado que se mostravam fatores positivos aos olhos do colonizador. Os retirantes da fome ou iam para Mindelo, se tornando escravos, ou partiam para as roças de São Tomé e Príncipe como contratados, enriquecendo, assim, as elites de Cabo Verde e de São Tomé que viviam desse tipo de escravidão dentro da própria África.
O colonialismo português nunca foi pacificamente aceito pela população do arquipélago, tendo a luta colonial se realizado de várias maneiras. No nosso século, por exemplo, antes da Segunda Guerra Mundial, sobretudo nos anos 20 e 30, elaborou-se uma ação “legal” através da imprensa e associações, no sentido de denunciar os abusos, arbitrariedade e injustiças cometidas pelos agentes e representantes das autoridades coloniais. Depois da Segunda Guerra Mundial, começou a desenhar-se uma nova etapa da luta, em que se combinaram os métodos “legais” com a atividade clandestina. Dessa forma, a 19 de setembro de 1956, Amílcar Cabral fundou o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), que atuou intensamente na guerra de libertação. Amílcar foi o grande líder revolucionário de Cabo Verde e Guiné-Bissau. Nascido na Guiné, filho de pais cabo-verdianos, era engenheiro agrônomo, poeta e pan--africanista. Comandou a prolongada luta política e armada pela independência tanto de Cabo Verde como da Guiné-Bissau.
Em 1957, o escritor cabo-verdiano Maltazar Lopes da Silva publicou O Dialecto Crioulo de Cabo Verde, encabeçando o movimento de legitimação e padronização da língua crioula.
Em 3 de agosto de 1559, tropas portuguesas abriram fogo sobre trabalhadores em greve nas Docas de pidjiguiti, no Porto de Bissau, na Guiné-Bissau, matando mais de 50 pessoas. O PAIGC iniciou a luta armada de 13 anos pela independência. Em 1960, o Movimento de Poesia Revolucionária montou forte oposição ao colonialismo. Os poetas cabo-verdianos Ovídio Martins, Kaoberdiano Dambara, Corsino Fortes, Onésimo Silveira, Abílio Duarte e muitos outros usaram a sua poesia para levantar a consciência popular e o debate público sobre as condições coloniais e a necessidade de mudança.
Em 20 de janeiro de 1973, Amílcar Cabral foi assassinado na Guiné-Conacri por agentes do Governo colonial. Em 24 de setembro de 1973, o PAIGC declarou a independência da República da Guiné-Bissau. Luís Cabral, irmão do falecido Amílcar, foi o primeiro presidente da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Mas, só em 5 de julho de 1975, a independência da República popular de Cabo Verde, separada da Guiné Bissau, foi reconhecida e proclamada em Praia. Aristides Maria Pereira foi eleito primeiro presidente da nação cabo-verdiana. Nascido na Boavista, trabalhou como administrador de telecomunicações na Guiné e foi membro fundador do partido. Após o assassinato de Amílcar Cabral, tornou-se secretário geral do PAIGC.
Cabo Verde assumiu sua independência com menos de três meses de provisões de alimentos, medicamentos essenciais e com um setor privado muito fraco. O desemprego e as expectativas populares eram elevados. Diante das dificuldades, os cabo-verdianos, em geral, continuaram obrigados a estar sempre emigrando. Assim, após a euforia da libertação veio um forte desencanto.
Em 1990, o Primeiro-Ministro Pedro Pires iniciou formalmente a “abertura” política, um movimento que iria proporcionar eleições multipartidárias em Cabo Verde. Estas se realizaram em 13 de janeiro de 1991. Em 1º de fevereiro do mesmo ano, António Mascarenhas Monteiro, antigo presidente do Supremo Tribunal de Cabo Verde, foi eleito Presidente da República.
Em 1994, Cesária Évora, a célebre cantora cabo-verdiana conhecida pelos seus admiradores franceses, como a “Diva Descalça”, ganhou um prêmio por vendas superiores a 150. 000 CDs na França. O seu triunfo assinala a chegada de Cabo Verde à cena da “World music”.
Embora a música cabo-verdiana afirme a identidade do arquipélago, hoje Cabo Verde também vive a ação transnacional do capitalismo econômico, dominado pelo FMI e pelo Banco Mundial. Muitos filhos das Ilhas continuam emigrando. Há uma quantidade bem significativa de cabo-verdianos nos Estados Unidos e no Canadá. Permanece, pois, na conjuntura contemporânea, o antigo dilema cabo-verdiano do “Ter de partir e querer ficar”.
SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. Literaturas Africanas. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006.
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